Cortaram-me as palavras
Por uns momentos, coloquei a hipótese de valorizar o tempo. Passei o olhar pelo espaço e obriguei-me a pensar em coincidências, em factos, no porquê, no como e em espaços vazios. Baixei os olhos para o computador. Cada palavra que escrevesse seria uma responsabilidade barulhenta. Sou sempre compreensiva comigo mesma, mas há sempre uma parte de mim que deseja corrigir o que está escrito, por medo da infinita responsabilidade. No entanto, existe qualquer coisa neste processo que me atrai quando tenho as mãos cheias de papéis.
Às vezes, sinto que me cortaram as palavras. Deixo aqui este mistério, pura e simplesmente imprudente. Serão as nuvens e o ar gélido que me fazem pensar assim?
Avancei um pouco na direção da cadeira, mas senti um arrepio e estremeci. Parei perplexa. Estaria assim tão mau lá fora? Levantei o queixo, espreitei e encontrei o caminho de volta para a imaginação. Precisava de um agasalho de lã. Os caminhos estavam gelados. Um manto quase descolorido acompanhava o muro. Tentei adivinhar o que seria um passeio de lazer pelas redondezas, no dia em que desejava a mudança dos espaços. Percorri a distância para a água gelada e escrevi que me cortaram as palavras. Assim, serei capaz de dar um sentido às pinturas, a todas as arrumações e à ilusão da nova decoração.
Darei, também, um sentido ao receio de juntar as palavras escritas.

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