Ausência de emoções
Voltei ao caminho estreito. Acho-o sempre antigo, pouco cuidado e matreiro. Uma palavra que não é usada para um sítio de passagem: matreiro. O dia carrega o cinzento de um céu nublado. O clarear tímido de uns raios de sol rompe a zona do caminho onde as folhas não caem. Estive ausente uns meses e tenho curiosidade em saber o que mudou, naquele sítio onde tudo é quase desconhecido. Às vezes, tenho a sensação que encolheu. Já o vi a precisar de obras, desgastado pelo tempo e rodeado de ausência. Gosto de caminhar naquele canto de surpresas. Em tempos passados fez-me sonhar o sonho que nunca existiu. Acho sempre que a culpa foi minha e que não dei oportunidade a esse sonho. Não me arrependo de ter mergulhado noutras inspirações, gratificantes e abrangentes. Um empurrãozinho para a minha felicidade que se apresentou prontamente, para garantir o meu sorriso.
Conto os passos para a casa do lado direito ficar visível. Uma preciosidade que acompanha uma família e a sua história neste mundo. Sei que quando o tempo passa tudo morre. Tudo fica a preto e branco. A tristeza inunda a vida e as sementes entregues a este mundo continuam o desejo de quem partiu. Dificilmente têm coragem para fazer mudanças visíveis. Todos compreendem as emoções que chegam ao mesmo tempo.
Mais à frente, ficará visível a rua com nome de cidade. As coincidências às vezes não parecem importar.
A sensação de estar perdida naquele labirinto é cada vez mais forte e reparo que o chão de terra batida não está igual aos outros dias. As nuvens estão visíveis no lado oposto. Matreiro. Serão poças de água tocadas pelo sol?! Sempre que ali passo cresce uma inspiração que me assusta. Encho-me de palavras que não ouço. Recordo momentos de escola quando tinha dez ou onze anos. Textos escritos e copiados pela colega, as palavras do professor e mais coisas pequenas no interesse. Percebi que havia algo diferente. Um silêncio estende-se como um nevoeiro que invade a cidade. Entre a memória e a imaginação há uma linha que contribuiu para este surpreendente silêncio. Penso que não pertenço ali.
A ausência de emoções faz-me estremecer de novo. Caminho para longe. Não voltarei ao caminho estreito. Vejo a porta aberta na casa com azulejos amarelos e sei que estão bem. Respirei com alívio. São muitos os sítios a que não pertencemos. São muitas as horas em que decidimos o que é melhor para nós. Não me dou hipótese de recuar. Os rasgos de emoção procuram-nos para nos contar a verdade, mas a ausência da emoção afasta-nos para o esquecimento. Suponho que trazemos dentro de nós um mundo de palavras e emoções.
Olho para a estrada que me leva para longe.

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