A Serra
Nem todos podem passear nos domingos sonolentos. Muitos preferem a praia e muitos nunca viram o mar.
O precipício que admiro não afasta o receio de estar perto daquelas cobras, que passeiam nos esconderijos ladeados pela vegetação que se estende até ao mar.
No alto da serra, reparo nos navios de transporte de mercadorias que se afastam protegidos pelas nuvens. Estão longe. Não deve ser fácil sentir que o mar os adormece a todos, na nostalgia das ondas. O caminho é longo. O sono não apaga as escolhas e os desafios são resistentes, em todos os meses de ausência que estão marcados no calendário. É preciso conhecer os segredos do mar antes de adormecer em cada um desses dias.
Do lado esquerdo, a areia branca escreve na pauta azul as notas musicais que se espreguiçam ao sol. O dia luminoso toca esse lugar de mar, com salpicos de verão. Tudo parece transparente.
Há um sorriso que alargamos nos nossos lábios quando vemos os golfinhos por ali.
Tudo o que vejo é alto e agreste. A serra desce e torna-se curva. Estende-se por recantos. Mostra a sua beleza e a sinuosa figura que parece exaltar. O verde cobre a preguiça do penhasco até à enseada. As exuberantes paredes de rochas que modificam a paisagem exigem o nosso respeito.
A paisagem parece acordar de um sono prolongado e murmura qualquer coisa que nos faz sentir bem.
Este canto de Portugal com castelos, fortes e faróis que nos observam e que nos protegem, esconde segredos que temos de preservar. Uma tela que a natureza pintou, protegendo espécies e toda a diversidade biológica, cujos estudos são publicados para lembrar a nossa lealdade. Assusta-me que possamos perder tanta beleza por motivos que não parecem prioritários. Assusta-me que o desejo de diversão, ou ocupação dos tempos livres, ou algo que envolva projetos inadequados, desgastem essa tela.
A serra precisa respirar… Precisa de ser devolvida ao seu silêncio…

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