Um passeio matinal



O ar fresco parece chamar-nos para um prazer inesperado e cada vez que respiramos sentimos uma ilusão que desperta nos sons da manhã quando abrimos a porta. Esse atrevimento, escolhido para o dia em que decidimos espreitar qualquer coisa de novo, agarra-nos com alegria. 

O passeio com o Silvio no caminho estreito é sempre um momento de descoberta. Não é meu. O Silvio não é meu. Temos um encantamento desconhecido que não precisa de ser contado. Reparo nas suas escolhas: afastar o conhecido com subtileza, ativar o modo sombra, pairar sobre o que pretende perceber, ignorar mais um pouco e espreitar de novo. E agora parou como um aviso escrito no vento. 

No caminho estreito os muros não são altos. Consigo ver as casas e os jardins, que foram arranjados e modificados nos últimos anos, mas ali, naquele sítio, a neblina esconde-nos. Estamos perto da rua com nome de cidade. O Corgi escuta as minhas palavras e corremos… Corremos com medo que nos vejam por ali. 

A neblina dissipou-se assim que nos afastámos. Do outro lado da estrada olhei para o portão antigo, para os edifícios quase abandonados, pensei noutros tempos em que houve alegria naquelas casas. As crianças a correr, as gargalhadas dos pais, a felicidade de todos, os cheiros adocicados e as cores vivas das rosas no jardim. Agora parece uma sombra que foi pintada de novo, que se mantém de pé com as paredes velhas a guardar o passado. Até está bonita, mas proibiram-na de pertencer a este tempo. Não quiseram modificá-la. Não quiseram trazê-la para este mundo novo. 

O jardim está de novo vivo, mas algo está diferente nos pormenores que ficaram entregues ao vento. A ausência de carinho nos pedaços oferecidos às cores verdes, às cores da primavera, às roseiras sente-se no olhar. Onde tudo era tudo está. Todas as pedras no mesmo sítio, todas as flores de volta ao mesmo local. Algo quase incompreensível para quem olha sem saber. O cimento que o rodeia abafa-o.

Quando estamos longe o sol alegra aquele canto nos dias de céu azul e as paredes amarelas parecem despertar de um sono longo. Um pedaço de vida continua a guardar o passado. Qualquer dia voltamos para encher aquele lugar de felicidade.





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